sexta-feira, outubro 2

Sobre o falar e ouvir

 

                            Obra do desenhista e pintor polonês Pawel Kuczynski

“Se um dia você tiver alguém, tente descobrir o que seus amigos, seus pais, sua mãe especialmente, o que eles realmente pensam da pessoa com quem você pretende passar a vida. Porque não vão falar, você vai ter que extrair essa informação deles. Mais nesse assunto especificamente do que tudo eles têm perspectivas, eles podem olhar de fora e absorver tudo, enxergar o relacionamento como ele realmente é. E se sentirem que está fazendo besteira, faça de tudo para te contarem ao invés de serem educadinhos, senão você vai acabar como eu, sentada num jardim em algum lugar com uma dessas pessoas próximas a você falando “eu te avisei” por horas e horas sem perceber que até então ela nunca tinha dito nada”. O texto é um trecho do diálogo entre uma senhora suspeita de matar os amantes do marido e uma policial na série europeia Criminal – Reino Unido. 

Houve um tempo em que as pessoas próximas, os amigos, os pais falavam sobre o mundo, sobre suas experiências, sobre relacionamentos, opinavam e as pessoas escutavam e até tentavam, na medida do possível, agir de acordo, mas esse tempo passou. Depois, os amigos e os pais falavam e as pessoas apenas fingiam que escutavam, e esse tempo também passou. Com o passar dos anos, as pessoas simplesmente não davam mais ouvidos. E ai chegou o tempo em que os amigos, os pais passaram apenas a observar, sem falar, sem opinar mais nada. E chegou o agora, em que os amigos e os pais simplesmente não ouvem e não falam nada, ninguém tá nem aí pra paçoca. E ninguém está tentando ser “educadinho” não. Não estão querendo ser nada.

Ninguém observa mais ninguém além de si mesmo, ninguém mais opina sobre nada da vida de quem ama. Tem gente que diz que esse é o melhor momento, o momento ideal da história em que cada um só cuida de si mesmo e ninguém “perde tempo” se preocupando com a vida do outro. Todos viraram aqueles três macaquinhos que um tampa o ouvido do outro, que tampa a boca do outro que está com as mãos nos olhos. O politicamente correto chamando inanição social de respeito mútuo.

No passado, quando um amigo, um parente observava que a pessoa iria dar um passo errado se via na obrigação de alertar e a pessoa em questão se via no dever de ouvir. O que hoje chamam de se intrometer na vida alheia, parecia o certo a fazer. É como se uma pessoa fosse cruzar a rua sem olhar para o lado e uma outra pessoa que estava observando, ao perceber que o atropelamento seria inevitável, grita e alerta o desavisado, que ouve e depois agradece por ter lhe salvo a vida. Mas o que mudou tanto de uns anos para cá? O carro que cruza as ruas em alta velocidade deixou de ser um perigo em potencial? Não, creio que não. A pessoa que cruza a rua displicentemente deixou de estar em perigo ao fazê-lo? Não, continuamos a ser um perigo para nós mesmo quando não temos a visão geral do momento. Aquele que observa deixou de sentir compaixão pelo outro, de querer ajudar, de ter vontade de impedir que algo de ruim aconteça aos que amam? Não, quero crer que não, isso seria o mesmo que afirmar que nos distanciamos tanto de nossa humanidade que não nos reconhecemos mais como humanos.

Então o que está acontecendo com o falar e o ouvir entre pessoas que se amam, que se respeitam e que querem o melhor para o outro? Ruído. Ruído demais. Nada atrapalha mais a comunicação entre as pessoas que o ruído. E sobre ruído podemos dizer que vivemos hoje uma verdadeira Babel de vozes, ideias, ideologias, conceitos, visões, previsões…

Li ou ouvi, o ruído não me permite afirmar, uma frase interessante sobre relacionamento em crise. “Os amantes ouvem com o coração. Quando duas pessoas que se amam não falam mais um com o outro, mas gritam, significa que seus corações estão tão distantes que mal podem se ouvir”. Ruídos. Ruído da insatisfação, frustração, rotina, descuido, correria, incompreensão…ruídos.

Por que não ouvimos mais aqueles que nos amam e que apenas querem nos ajudar? Ruídos. Ruído do medo da desaprovação, descobrir a razão pela qual nos importamos tanto com o que pensam sobre nós, constatar a nossa dependência dos outros a ponto de não conseguirmos fazer diferente, a impotência da razão sobre os desejos, a falta de amor próprio, ter que ouvir, depois de tudo, o “eu te avisei” molestando os ouvidos como um entoar de feitiços em um ritual satânico…ruídos.

E por que aqueles que nos amam não falam mais? Ruídos. Ruído de parecerem prepotentes, medo de afastar os que amam por causa dos ruídos deles, o famigerado choque de gerações, receio de expor que sabem muito do ontem, talvez pouco do hoje e praticamente nada do amanhã, pavor de serem abandonados num canto qualquer como uma relíquia daquelas que todo mundo tem uma em casa, não consegue se livrar pois tem um valor, mas que ninguém sabe exatamente qual é…ruídos.

 

Por Cristian Menezes – 9/2020

terça-feira, setembro 22

O caso Tamayo e o niilismo ético na pós-modernidade

 

                                                   Ilustracão de Pawel Kuczynski

Mulher é presa por tráfico de drogas e envolvimento com prostituição. Esse tipo de notícia é, infelizmente, até bastante comum em nosso País. Mas por que, então, nesse momento e uma mulher em especial tem incomodado tanta gente? Explicar essa comoção de parte da sociedade com o caso da “modelo” Flávia Tamayo é mexer em águas profundas e lamacentas de nossa sociedade pós-moderna, mas vamos lá. Flávia foi presa em julho, em um hotel no Espírito Santo, suspeita de fazer parte de uma organização criminosa de garotas de programa de luxo que atuavam no tráfico de drogas. Mas até aí ainda continua um caso corriqueiro que chega aos milhares nas delegacias Brasil afora todos os dias, não fosse, e aí começa cair a cortina, por um detalhe: garotas de programa “DE LUXO”. Esse “DE ‘LUXO” é que faz toda a diferença. Flávia Tamayo foi, nada mais nada menos, que capa da Playboy, umas das revistas, se não a revista, masculina mais aclamada em todo o mundo. No Brasil, a norte-americana Playboy, distribuída pela Editora Abril até há alguns anos, despiu e fotografou ícones de popularidade tupiniquim, celebridades, socialites…que acabaram virando símbolos sexuais, objeto de desejo de onze em cada dez compradores da revista. Entre as 451 capas brasileira figuraram, por exemplo, Luma de Oliveira, Betty Faria, Luana Piovani, Vera Fischer, Xuxa Meneguel…e a Flávia Tamayo. O que elas têm em comum? A Beleza estonteante. O que elas não têm em comum? A maioria, claro não todas, das mulheres capas da Playboy se deram bem na vida. Ou casaram bem, ou se tornaram apresentadoras de TV com salários de seis dígitos, ou viraram empresárias e vivem confortavelmente em algum paraíso tropical…mas a Flávia não. A Flávia foi transferida do presídio de Cariacica, no Espírito Santo, para a Capital Federal, onde recebeu habeas corpus e passará a usar tornozeleira eletrônica até o fim do processo.

Ainda está lamacento? Pois bem. A questão aqui é que a sociedade costuma julgar as pessoas pela aparência, pelo status social, pelo cargo que ocupa. Aparência é tudo e nunca foi tão tudo quanto agora. Quando se vê uma mulher bonita, linda, capa de revista, costuma-se agregar a ela caráter, um caráter bom que pode não estar, necessariamente, com ela, fazer parte dela. Beleza estética é beleza estética e só. Nasce-se com ela, ou, agora, adquire-se, implanta-se. Já o caráter é outra coisa. Caráter, segundo alguns dicionários, tem a ver com a caracterização do próprio sujeito, índole, temperamento, personalidade, formação moral, características que podem ser boas ou más, mas que distinguem uma pessoa, um povo…popularmente quando falamos de caráter estamos nos referindo a características positivas, valores morais. Talvez por isso que nas notícias vinculadas em mídia nacional o nome Flávia vem quase sempre acompanhado de comentários do tipo “mulher que desperta desejos em homens da alta sociedade” ou por insistentemente ser tratada como modelo, assim, sem aspas. Teria isso corroborado para a concessão do habeas corpus diferentemente de tantas outras de, digamos, menor valor estético, que são flagradas com porções de droga nas genitálias tentando entrar nos presídios e por lá mesmo são trancafiadas e esquecidas?

O caso Flávia Tamayo lembra muito outros dois que tiveram grande repercussão pelo mesmo motivo, o da jovem Suzane von Richthofen, aquela loirinha, linda, educada…que matou os pais. É como se a sociedade se recusasse a aceitar que uma mulher branca, de olhos claros, cabelos perfeitos, corpo curvilíneo…pudesse ser assassina. Também lembra o caso do assassinato da Daniela Perez, filha da Gloria Perez, pelo moreno alto, bonito e sensual Guilherme de Pádua. Ninguém queria acreditar que foi ele quem matou a atriz…mas foi.

Em uma sociedade que está beirando o niilismo ético, é como se as pessoas quisessem desesperadamente ver no “melhor” que a sociedade pode produzir a boia salva vidas de valores perdidos onde possam se agarrar para não se afogar no mar de degeneração moral. O problema é que pessoas bonitas, com traços simétricos, brancas, altas, loiras, magras, com olhos azuis ou verdes não são, obrigatoriamente, sinônimos de pudor, honestidade, afabilidade, respeito, sinceridade, responsabilidade, lealdade…assim como pessoas feias, com traços assimétricos, negras, baixas, cabelos encaracolados, gordas, olhos castanhos não são sinônimos de despudor, desonestidade, desrespeito, falsidade…tudo é estereótipo criado pela mesma sociedade que agora luta para respirar em meio a uma poluição ética caótica criada por ela mesma. Tão errado quanto, é pensar que o melhor da sociedade só pode estar nos condomínios luxuosos, nos edifícios suntuosos, dirigindo carros caros, nas universidades particulares, nos clubes privados…o melhor da sociedade pode estar nas favelas, nas meias-águas, andando de bicicleta, nas escolas públicas, nos piscinões…o melhor da sociedade pode estar em qualquer lugar ou em lugar nenhum.

Resumindo, o incomodo causado pela prisão da Flávia Tamayo não tem nada a ver com a Flávia Tamayo, mas com a sociedade que esperava mais da Flávia Tamayo do que realmente Flávia Tamayo é. O problema é a imagem positiva que a sociedade esperava da Flávia Tamayo como reflexo dela mesma, ou do melhor que ela poderia ser, uma espécie de arquétipo do bem coletivo projetado no individual para dar sentido ao coletivo. É o mesmo pré-julgamento que a sociedade faz das minorias, do negro, do pobre, do gay, do refugiado, do deficiente…só que ao contrário, uma espécie de discriminação às avessas. A justiça da sociedade pós-moderna não é cega, pelo contrário, enxerga demais, vê o que não existe, traz consigo um pré-conceito de um cidadão perfeito e nele a beleza estética além de moldada na argila dos dez por cento mais privilegiados da população com todos os seus traços étnicos e culturais ainda é um sujeito politicamente correto.

E quem é realmente a bela Flávia Tamayo nessas alturas do campeonato? Bom se quiser conhece-la de verdade não é nas páginas coloridas de papel brilhante e caro assinadas por J.R. Duran, mas em sites especializados em pornografia com a sugestiva alcunha de Pâmela Pantera.


Por Cristian Menezes - 9/2020

terça-feira, setembro 8

Somos Processos


O universo é processo. O mundo é processo. Somos processos. Estar em processo, ser processo significa não acabado, por acabar. E talvez nunca acabe. Estar em processo é tudo que se pode ser. O universo é, segundo cientistas, um processo em expansão. O mundo é um processo de reorganização constante. E nós? que tipo de processo somos? Para variar, somos bem mais complexos, ou não. O fato é que cada um de nós tem o seu próprio processo ou processos. De expansão, de retração; de reorganização, de desorganização; de mudança, de constância; de cura, de doença; de liberdade, de escravidão; de sair do poço, de afundar no poço…e isso não tem fim. 

Perguntaram certa vez ao filósofo, escritor, orador considerado ser de luz para os indianos, Jidu Krishnamurti quantas religiões existiam no mundo e ele respondeu: existem tantas religiões quanto existem pessoas. Ou seja, cada um tem sua própria religião. Mesmo em uma igreja, um templo, uma tenda…as pessoas que ali estão compartilham, compactuam de partes daquela religião, mas não de tudo e assim cada um tem, na verdade, sua própria religião, suas próprias crenças que diferem das outras. E a religião também faz parte dos processos humanos, pequena parte para uns, grande parte para outros, mas apenas uma parte do todo.

Tenho conhecido muita gente diferente nos últimos meses. Vejo-me dividindo, compactuando de parte do processo deles, mas não é totalmente meu processo. Tenho meu próprio processo. E isso é de extrema importância. Ter consciência do seu próprio processo para não “embarcar” no processo alheio pensando ser o seu. Nunca será. Vejo isso como se fosse uma procissão de navegantes. Pequenas, medias e grandes embarcações saindo de um único porto em uma mesma direção. Aos poucos algumas embarcações se juntam a outras por afinidades, seja por amizade, parentesco com os outros navegantes ou mesmo apenas pela cor do barco, pelos enfeites que utilizaram para orna-los…não importa. Ficam próximos por um tempo, uma parte do percurso, mas aos poucos, ou às vezes abruptamente, se afastam uns dos outros. Alguns observam esse afastar, esse dispersar, outros sequer tomam conhecimento, quando veem já estão sós no meio ou à margem do rio.

Quando se tem consciência de seu próprio processo, consegue escolher o momento certo para dispersar e ficar observando cada um seguir seu próprio caminho, sua procissão, seu processo. Quando não, é tomado sem querer pela angustia de estar só. E não se espante com a palavra, porque se cada um tem seu próprio processo, é claro que estamos sós nesse rio chamado existência.

Observei que às vezes você se apega, se aproxima de alguém, de um dos barcos e o desejo é de ficar perto, seguir juntos por mais tempo. Mas nem sempre é possível. Vai depender de o quanto os processos estão em intersecção, isso mesmo, aquele termo da Matemática, mais especificamente em Teoria dos Conjuntos, que quer dizer um conjunto de elementos que, simultaneamente, pertence a dois ou mais conjuntos. Quando a intersecção acaba, e isso pode ser em horas, dias, semanas, meses, anos, décadas…acabou a possibilidade de proximidade e cada um precisa seguir seu caminho, seu processo.

Outa coisa que vi nisso tudo é que tem gente que tem mania de achar seu processo melhor que o dos outros ou que o seu (processo) está em um nível acima. Quando se dispersa e passa a observar os outros barcos se distanciando costuma ficar tentando adivinhar aonde a rota que o outro barco tomou vai leva-lo e julga estar aquele barco tomando o caminho certo ou o errado, mais sinuoso, mais perigoso, menos indicado…ledo engano. Não existe rota certa ou errada, processo certo ou errado, só rota, só processo. E nada mais. Aqui cabe um trecho da música do mestre Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”. Quando a reciprocidade, os gostos em comum, o prazer do estar junto acontece, quando "rola a química", a vontade que dá é de tornar a se aproximar daquele barco e gritar: “Ei, essa rota aí é fria. Volta, vai por ali, vira aqui, segue comigo que te ajudo a navegar, já passei por esse trecho do rio e sei o caminho das pedras!!!”. Sinceramente? É perda de tempo. É como se cada um de nós tivesse a própria bússola, o próprio GPS que só obedece, só reconhece seu próprio Norte. Faz parte do processo.

Raramente acontece. Já vi acontecer. Não comigo, não agora. Mas já observei um barquinho se aproximando do outro e como quem não quer nada, lenta e silenciosamente encosta. E tão sorrateiramente quanto se aproximou leva de pouquinho em pouquinho o outro barquinho para uma rota mais tranquila, mais segura. E os dois barquinhos conseguem seguir juntos rio abaixo, numa rota só deles, com o pôr do sol às costas…a essa aproximação suave os outros navegantes do “rio da vida” como eu chamam de AMOR.

Por Cristian Menezes - 9/2020


terça-feira, agosto 25

Quem quero ser...ou continuar sendo


Que o mundo está ferrado, não é nenhuma novidade. Que não sou a cura, também não. Mas quero contribuir para tentar melhorá-lo ficando o mais distante dele possível. Não quero me enquadrar, me adaptar, me moldar ao mundo como ele está. Quero tentar ser melhor do que ele força-nos a ser.

Quero ser sincero, mesmo que falsidade seja quase uma reverência, um cumprimento obrigatório, uma etiqueta.

Quero continuar a acreditar nas pessoas, mesmo que a incredulidade faça parte de toda roda de conversa, como o futebol e a política.

Quero ser fiel, mas não como um cão, que o é por causa da comida, porque foi ensinado a ser.

Quero ser verdadeiro, mas sem a presunção de achar que toda verdade pode ou deve ser dita.

Quero ser amigo e não só colega, “parça” de alguém ou um contato nas redes sociais.

Quero poder ser solicito sem sequer pensar em pedir algo em troca. Quero poder pedir algo quando necessário sem ter que virar refém de quem me ajudar.

Quero ser do bem, sem, contudo, abandonar de vez a maldade que habita em mim, preciso dela, sob controle, para sobreviver.

Quero falar bem da minha família, mesmo sabendo não ser a mais perfeita do mundo, mas, afinal, qual é?

Quero estar no fundo da sala em silêncio, no escuro, junto com outros, com um lança confetes na mão para, ao acender das luzes, explodir em alegria pela passagem de ano de uma pessoa especial. Quero, ao acender as luzes da minha sala, ser surpreendido por pessoas que me querem bem cantando desafinados o ‘parabéns pra você!’ e que realmente essa data seja querida.

Quero usar branco na festa de Ano Novo e preto em velórios...ou vice-versa.

Quero poder falar o que penso sobre qualquer coisa sem ofender ninguém.  Levantar bandeiras, empunhar faixas, içar velas…sem que isso seja visto como um chamamento à guerra, uma afronta à paz.

Quero poder ir sem deixar ninguém triste pela partida, voltar sem que ninguém fique ansioso por achar que mudei.

Quero poder ter o privilégio de ser mais do mesmo e a mesma coisa, sem o stress de ter que me reinventar a cada encontro, a cada festa, a cada olá, a cada olhar.

Quero poder usar minha camiseta da sorte, minha calça surrada, meu All Star sem cor definida, minha cueca furada…vestir-me para mim, para meu conforto.

Quero ser livre e poder compartilhar minha liberdade com alguém. Quero ser comprometido e que se comprometam comigo.

Quero ser honesto, devolver a carteira perdida e que isso seja considerada uma atitude cotidiana, não pauta de telejornais.

Quero poder ter o dom de perdoar quem não me quer bem, porque perdoar quem nos quer bem é fácil.

Quero poder dizer que me importo com o sofrimento alheio para mim mesmo, sozinho, antes de dormir.

Quero ficar triste sem cair em depressão, chorar sem parecer desesperado, gritar sem parecer louco.

Quero poder ter exatamente a idade que tenho, sem querer parecer mais jovem para conquistar alguém ou mais velho para dar conselhos a quem não pede.

Quero poder nadar pelado em um rio, andar nu em minha casa, tirar caquinha do nariz sem me preocupar se estou sendo filmado por uma câmera de segurança ou um drone.

Quero poder xingar quando sentir raiva, sem ser acusado de discriminação ou racismo.

Quero poder dar risada do tiozinho que se estatelou no chão porque estava andando olhando para o celular, sem me sentir politicamente incorreto.

Quero comer, beber, fumar, fumar, beber, comer…assim mesmo, desse jeitinho, sem limite ou ordem, e sem julgamento.

Quero jogar meu lixo todo misturado; quero tomar Coca-Cola com canudinho de plástico, daqueles branquinhos com listas vermelhas e uma sanfoninha na ponta para dobrar; quero comer carne vermelha, branca, rosada...sem me sentir culpado pelas gerações futuras.

Quero comer doce de abóbora em forma de coração, doce-de-leite na casquinha de sorvete e pão com feijão.

Quero ser preocupado com o mundo sim, mas sem ser piegas.

Quero poder bater no peito e dizer que sou “O Cara”, sem falsa modéstia, simplesmente porque me sinto assim, me sinto bom em alguma coisa, qualquer coisa.

Quero ser cremado, e não enterrado, odeio terra, não sou batata.

Quero receber amigas em minha casa sem segundas intenções, somente pelo prazer do drinque, da boa música e da conversa fiada. Quero cumprimentar meus melhores amigos com um beijo no rosto como faço com as amigas, sem que digam que sou gay, até porque, se fosse beijaria na boca.

Quero passar a mão na bunda da minha namorada em público e que isso não pareça vulgar. E por falar em vulgaridade, quero ser vulgar sem deixar de ser sofisticado e ser sofisticado sem deixar de ser vulgar.

Por fim, mas não menos importante, quero fazer amor e não só sexo. Quero ir pra cama com uma pessoa especial e ficar lá, na cama, até amanhecer o dia. Quero dormir de conchinha sim, por que não? Quero acordar e ser acordado com um beijo suave. Quero levar café na cama, mandar flores, escrever poesias, enviar corações pulsando pelo celular…e se isso for considerado brega demais para o mundo “moderno”, que se dane o mundo, é assim que quero viver a minha vida.


Por Cristian Menezes - 8/2020


quinta-feira, julho 16

Arrependimento: um presente de grego


Presente de grego é uma referência ao último dos dez anos da famosa Guerra de Troia narrada no poema Íliada, de Homero, em que o rei espartano Menelau destacou grande exército, com grandes guerreiros, entre eles o semideus Aquiles e Ulisses, o rei de Ítaca, das ilhas gregas até Troia no intuito de resgatar sua esposa Helena “raptada” por Páris, irmão de Heitor, filhos de Príamo. Sem conseguir penetrar os muros de Troia, um estratagema foi arquitetado por Ulisses: todo o exército de Menelau se retirou deixando apenas um enorme cavalo feito com a madeira das embarcações como presente dos gregos aos troianos por “vencerem” a guerra pela desistência do adversário. O “Cavalo de Troia”, como ficou eternizado, estava recheado com os melhores guerreiros gregos, que aguardaram os troianos adormecerem depois de se embriagarem no afã da “festa da vitória” para sair de dentro do cavalo, abrir os portões e aniquilar toda a cidade, fazendo das mulheres e crianças escravos.

Dito isto, o arrependimento pode ser comparado a um presente de grego, um “Cavalo de Troia” dado à nossa consciência. Presente porque nos é dado, mas como o ardiloso mimo de Menelau, mais para ferir, trazer prejuízo que para alegrar. É o tipo de sentimento que ninguém gostaria de ter, e não o teria não fosse empurrado goela abaixo. É a dor por algo que já aconteceu, que já foi feito, portanto, irremediável. O arrependimento rompe os portões intransponíveis de nosso inconsciente e adentra a cidadela de nossa consciência para nos dizer o quão errado fomos, o quão injustos, o quão sediciosamente imorais podemos ter sido em algum momento e que, graças ao Cavalo de Troia, ecoará em nós para o resto de nossas vidas, lancinando nossas mentes, nossos corações ad infinitum, como, já que falamos em mitologia grega, o próprio Prometeu, acorrentado ao monte Cáucaso, condenado por Zeus a ter o fígado dilacerado todos os dias por uma águia e todos os dias regenerado para novamente ser rasgado.

O tamanho da tortura que pode nos causar nosso “presente de grego” é direta e diametralmente proporcional a dor impingida pelos nossos atos. Sofremos tanto o quanto fizemos sofrer e, às vezes, sofremos em dobro, pela dor que causamos ao outro e pela dor do arrependimento. E ainda há quem suscite uma verborrágica didática no arrependimento: o arrependimento vem para nos ensinar a não repetir os mesmos erros no futuro. Balela. Erramos de novo e novamente e o tal do “Cavalo de Troia” só cresce, passa de um pequeno Pônei a um imponente Shire. Podemos até aprender com nossos erros, mas didaticamente falando, o arrependimento está para o crescimento espiritual assim como a palmatória está para a educação tradicional: aprender pode até aprender, mas que dói, dói, e dói pra caramba. Nestes termos sou a favor de uma didática mais contemporânea, reflexiva, de ponderações.

Outra comparação que cabe aqui entre o presente dos gregos aos troianos e os cavalos de Troia que nos presenteamos ao longo de nossa existência é o final infeliz declamado por Homero. Lá, na Grécia do século XII ou XIII a.C., a guerra foi o crepúsculo de dois grandes heróis, Heitor, morto por Aquiles em vingança pela morte do primo Pátroclo, e o próprio Aquiles, abatido por uma flechada certeira disparada por Páris em seu calcanhar, único ponto vulnerável do semideus, cujos feitos foram cantados por poetas por séculos seguidos. Aqui, na nossa própria história, um único herói perde a vida, nós mesmos. O arrependimento por algo terrível que fizemos mata o herói, no sentido grego da palavra, o ser honrado, honesto, de altos padrões morais e éticos, o melhor de nós que poderíamos ter sido não tivéssemos errado tão patentemente. E o herói dentro de nós morre como o herói grego Aquiles, atingido em nosso ponto vulnerável, o nosso ponto mais frágil…o coração.

Por Cristian Menezes - 7/2020

quarta-feira, julho 8

Como o mundo muda para melhor?

       Imagem: filósofo italiano Nicolau Maquiavel, do Portal Grande Ponto
Certamente essa é uma questão que assombra a humanidade desde que se reconheceu como humanidade. Certamente também não existe uma fórmula secreta para isso. Mas a Filosofia traz pistas. Uma delas bem poderia ser uma função da ética que se já dita, não é tão conhecida. Os livros trazem, resumidamente, a ética como “um conjunto de valores que servem para orientar o homem no convívio com os seus em sociedade”. Vendo por esse angulo, a ética é flexível, uma vez que os valores, segundo o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, são complexos, ou seja, “todo valor tem no seu contrário um valor também”. Exemplificando, se a honestidade é um valor, a desonestidade também, afinal, qual casamento se sustentaria sendo os cônjuges cem por cento honestos um com o outro o tempo todo? “Esse vestido (que rodei o shopping o dia inteiro para comprar e custou mais do que poderia ter pago) está bom meu amor?”, pergunta a esposa, sorridente. “Está simplesmente horrível, meu bem!”, responde o marido. Lá se foi a harmonia do casal pela falta de uma desonestidadezinha que não faria mal a ninguém.
Mas e se a ética tivesse uma outra função, que não apenas a de servir como uma bandeira branca entre os homens para que possam conviver? E se por ética compreendamos preceitos não tão flexíveis assim e que, exatamente por sua inflexibilidade, tivessem o poder de mudar o mundo para melhor? Que tal imaginar o século XVIII com madames desfilando em luxuosas carruagens cercadas de escravos para lhes servir? Imagine as festas suntuosas em grandes mansões em que os escravos eram enfileirados e postos à amostra como peças integrantes da decoração da casa? E os leilões de venda de escravos, que, via de regra, se tornavam eventos sociais de grande magnitude, atraindo, entre outros, membros de destaque da sociedade laica e clerical. Não teria sido a ética de alguns que se revoltaram com a condição de humanos-escravos que iniciou todo o movimento abolicionista no mundo inteiro a ponto de essa indignação ecoar pelos séculos e fazer com que cidadãos ingleses de Bristol “afogassem” no rio a estátua do famoso escravocrata Edward Colston, agora, mais de 200 anos depois?
A ética inflexível, a reflexão que toma por base valores de convivência e os mantém incólumes, pode resultar na indignação, semente das grandes revoluções, que por sua vez têm a capacidade de mudar o mundo, quase sempre para melhor, pelo menos em teoria. A escravidão, o tratamento vil para com pessoas iguais, diferentes apenas na cor da pele, feriu a ética de pessoas preocupadas com os direitos do humano em geral, não apenas com os nascidos no privilégio da cútis alva. Os valores que servem de base para essa ética inflexível? Uma delas sem dúvida é a compaixão. Segundo o Dicionário Aurélio, “Sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la; participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor”. O contrário da compaixão? Indiferença, um valor também, claro, em algumas circunstâncias bem particulares, por exemplo, uma pessoa que tenha que cuidar de um parente com esquizofrenia em estágio avançado que o achincalha todas as manhãs por confundi-lo com outra pessoa. Veja que nesse caso específico, a indiferença chega ser uma dádiva. Porém, caso a escolha dos então futuros abolicionistas tivesse sido, como o da maioria à época, a indiferença, hoje ainda teríamos senzalas espalhadas por toda parte e pelourinhos içados nas praças para castigar aqueles que ousassem falar em liberdade ou em igualdade de direitos.
A questão aqui, portanto, é: eu aprendo muito quando flexibilizo, minimizo minha ética para adaptá-la, ou adaptar-me, a certas circunstâncias, geralmente imediatas. Porém, eu posso ensinar as pessoas à minha volta, o mundo quiçá, a refletir quando a mantenho inflexível diante daquilo que me causa indignação, daquilo que prevejo ser o melhor para a humanidade, seja em curto, médio ou a longo prazo. Não seria, afinal, uma ética intransigente a produzir cidadãos honestos e responsáveis, políticos incorruptíveis, empresários comprometidos com a sociedade?
Não são poucas as coisas que podemos vislumbrar seria melhor caso deixassem de existir. Também não são poucas as coisas que estão em processo de mudança, graças, em grande parte, à ética imutável, incorruptível de alguns corajosos, que aceitam a árdua tarefa de se tornarem personae non gratae em seus círculos familiares, de amizades ou até para toda a cidade ou país. Exemplos? As pessoas que lutam em prol do meio ambiente; pessoas que dedicam a vida para salvar animais em risco de extinção; pessoas que correm o mundo para lutar pelos direitos das mulheres a, apenas, aprender a ler ou sentir prazer. E todas essas mudanças em andamento estão sendo conduzidas por pessoas cuja ética não flexibilizou para o seu oposto, não se calou, não se escondeu.
Existe uma linha tênue em flexibilizar a própria ética e tornar-se hipócrita. Afinal, poderíamos dizer que existe mesmo uma ética, uma reflexão de valores em quem não se incomoda com nada, em quem em todo lugar se sente bem, em toda situação se vê confortável, naquele que serve uma ética a la carte ao bel prazer do “cliente”? Não é, pois, a manutenção de nossos princípios (éticos) que acabam por nos definir como pessoas?  
Mesmo no mérito do pensamento de Morin - que dizia que o homem deveria acrescentar um demens à sua autodesignação, ficando homo sapiens sapiens demens -, ou seja, racional, mas também um pouco descomedido, louco -, não podemos perder a noção de que nossas atitudes, nossas ações, nossas escolhas é que fundamentam o nosso devir. É, portanto, de nossa total e inteira responsabilidade o que nos tornamos e tornamos o mundo. E se o preço por isso for um pouco de incompreensão, isolamento…aquele olhar atravessado ao passar na rua ou mesmo aquele convite para uma festa que todo mundo recebeu, mas não chegou para você…paciência, acho que vale a pena pagar.

Por Cristian Menezes - 7/2020

quarta-feira, junho 17

Ensaio: O melhor do pior que poderia ser

                                                                       A arte de Pawel Kuczynski
Andei refletindo muito sobre duas frases, uma a vejo estampada em uma porta quase em frente à minha sala de trabalho todos os dias e outra já tinha ouvido várias vezes, mas nunca tinha me chamado muito a atenção, creio que o problema semântico, que EU vejo nelas, talvez me tenha despertado interesse. A primeira, “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, dita por Cora Coralina e repercutida enfaticamente entre pedagogos e profissionais da Educação. A outra é secular, é um trecho da oração de São Francisco, “…É dando que se recebe…”, claramente inspirada na passagem bíblica “Dai, e vos será dado…” (Lucas 6. 38). Sobre a primeira frase, vejo uma discrepância (crono)lógica na segunda parte, “…e aprende o que ensina”. Como assim? Não seria a “confissão” explícita de que “ensinei” sem saber o que estava ensinando? Penso que só se pode “aprender” do Latim ad, “junto” mais prehendere, com o sentido de “levar para junto de si”, metaforicamente “levar para junto da memória” aquilo que não se sabe, tendo como única variação possível, porém pouco provável, o verbo reaprender, voltar a aprender aquilo que se havia aprendido e esqueceu, mas quando se aprende alguma coisa e se esquece, uma dúvida logo surge: será que aprendeu mesmo, afinal? Não reza a lenda que aquilo que realmente se aprende jamais se esquece? Penso que seria complicado um mundo onde as pessoas tivessem que reaprender a andar, falar, nadar…andar de bicicleta frequentemente. Dramatizando isso em um procedimento médico, por exemplo, não significaria dizer que um cirurgião vascular “aprende” sobre as veias coronárias somente estando debruçado sobre o tórax aberto de um paciente cardíaco? “Qual é mesmo a cava superior?”, indaga o cirurgião ao assistente de cirurgia. Improvável não? Mas um educador pode chegar na Sala dos Professores no intervalo das aulas e, em espanto, exclamar aos quatro cantos: “Geeeennnttteeee, não é que a terra é redonda mesmo!!! Jurava que era plana”, isso depois, e somente depois, de acessar uma webcam ao vivo de um satélite da NASA em órbita terrestre com os alunos em uma aula de Ciências. Depois não sabemos o porquê (ou seria ‘porque’, tenho que aprender…) da diferença salarial tão gritante entre as duas classes de profissionais.
Já sobre a segunda frase, a questão é um pouco mais complexa, filosófica até algo do tipo “…o ovo ou a galinha?”. Posso dar aquilo que não tenho? E por que não tenho? Não tenho porque não me foi dado? Posso ter sem ter recebido? Creio que se o trecho da oração de Francisco de Assis se referisse apenas, e tão somente, ao plano terreno, físico seria fácil explicar e coerente a sentença. Mas é sobre sentimentos, amor, compreensão, perdão…a que ele se refere, é ao plano espiritual, metafísico. Tanto é verdade que a própria inspiração de Francisco, Jesus Cristo, veio, segundo as Escrituras, para dar o exemplo, amar os que o odiaram, perdoar os que o condenaram. Só na teoria, na palavra não teria sentido. Como posso amar, sem nunca ter recebido tal complexo sentimento? Posso realmente perdoar sem conhecer a dádiva do perdão? Compreender sem ter a dimensão real do compreensivo? Geralmente podemos aprender pelo exemplo ou pelo bizarro, quer dizer, posso aprender a amar pelo amor ou pelo contrário dele, pelo ódio. Aprender a compreender a partir da incompreensão. Aprender a perdoar depois de ter sido eu mesmo condenado. A isso chamamos pomposamente de sublimação, mas vamos e venhamos, é muito arriscado. O ideal é quando aprendemos a amar por termos sido amados, compreender por em algum momento termos sido profundamente compreendidos, perdoar por termos sido perdoados. Só que assim, a sentença franciscana fica comprometida, invertida, “é recebendo que se dá”, ou melhor, “damos aquilo que recebemos”. Se recebi muito, posso dar muito. Se recebi pouco, pouco dou. Se nada recebi, nada dou. Essa, ao meu ver, é a realidade, a triste realidade, longe de ideologias religiosas, mas próximo, muito próximo do que vivenciamos. Há exceções, mas são exceções. Aqueles que pouco receberam, mas muito dão, e os que nada receberam, mas conseguem dar algo…aprenderam com o bizarro, o esdrúxulo, o contrário…aprenderam com a vida, são sobreviventes, guerreiros, são os melhores do pior que poderiam, que estavam fadados a ser… “Vós pouco dais quando dais de vossas posses. É quando dais de vós próprios que realmente dais”, escreveu o poeta libanês Gibran Khalil Gibran. Dádiva, portanto, fala quase sempre sobre pessoas e não coisas e aprender pelo que lhe foi negado exige muita, muita presença de espírito, dedicação e autoconhecimento. Difícil? Certamente, mas não impossível.
                                                          
                                                                           Por Cristian Menezes – Junho/2020